De olho na estrada, tem animal atravessando a pista

Por Sergio Santorelli Junior¹ e Clarissa Rosa²  O trecho da BR-319 entre Manaus (AM) e Humaitá (AM) é, atualmente, uma das áreas de maior preocupação ambiental devido ao projeto de reestruturação da rodovia, que liga as duas cidades, e que não está adequado ao trânsito intenso. A recuperação da BR-319, inevitavelmente, irá ocasionar um aumento no fluxo de pessoas e veículos na região, na ocupação do seu entorno e nas taxas de desmatamento. Com isso prevê-se uma ampla redução da cobertura florestal original, além de ameaçar as florestas localizadas nos arredores da estrada. Mas não só: existem outras preocupações que também deveriam ser levadas em consideração sobre a recuperação dessa estrada.  É bastante comum em rodovias encontrarmos espécies de cobras, sapos, aves e mamíferos atropelados, e com o aumento do tráfego de veículos da rodovia, sem uma estratégia adequada para proteger os animais que vivem nas florestas, é muito provável que muitas espécies passem a ser ameaçadas pelos impactos do atropelamento de fauna. Mas isso deixa uma pergunta: quais espécies poderiam ser mais afetadas com esse aumento de tráfego? Segundo alguns estudos já realizados, a resposta para isso é: “depende”.   Muitas espécies de animais possuem restrições no seu deslocamento e nem chegam próximas à rodovia, sofrendo efeitos do isolamento causado pela presença da pista. Porém, aquelas que são de alguma forma atraídas para a pista, e se movem devagar, acabam sendo as vítimas fatais dos atropelamentos. Da mesma forma, animais que necessitam de grandes áreas de vida, se deslocam sem grandes restrições, ou dificuldades, e precisam transpor a rodovia para utilizar todo seu o território. As cobras são os exemplos mais comuns desse tipo de problema.  Identificar quem são as outras espécies que possuem essas características ao longo da BR-319, é um desafio! Não apenas isso, também é importante considerar como elas se relacionam com o ambiente, antes e depois da presença da rodovia. Ter esse entendimento permitirá garantir a eficácia em intervenções que visam reduzir e remediar os impactos negativos que podem ser gerados em populações de animais com a presença da rodovia. ¹Pesquisador vinculado à Universidade Federal do Amazonas – Campus Humaitá (Ufam - Humaitá) através do Programa de Fixação de Recursos Humanos no Interior do Estado (FAPEAM – PROFIX Edital 009/2021)  ²Pesquisadora de pós-doutorado do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

Experiências da juventude da floresta na BR-319

Antonio Mathias Apurinã, é castanheiro e mora na Terra Indígena (TI) Caititu, localizada no município de Lábrea (AM). Com empolgação, ele conta que as principais atividades econômicas desenvolvidas no seu território são os Sistemas Agroflorestais (SAF) e a extração da castanha. “O início da nossa TI fica no em torno da cidade e foi muito degradado. Trabalhamos com parceiros que trouxeram a experiência e a troca de conhecimento em SAFs e, também, temos o coletivo da castanha, que nos fez sair das mãos dos atravessadores. Agora, estamos no processo de organizar cada vez mais o nosso produto”, disse. O relato de Antonio foi feito durante o II Encontro da Juventude Extrativista e é um exemplo do que as novas gerações estão vivendo nos seus territórios, com a renovação a e inovação no modo de vida tradicional.   Já Vanessa Apurinã, da Gerência de Monitoramento Territorial da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), vê na comunicação uma forma de expressar a preocupação da juventude amazônida extrativista, e dos povos indígenas, os impactos causados por grandes empreendimentos, como a BR-319.   “A BR-319 foi construída dentro de um arco de desmatamento que tem afetado não só o clima, mas também vidas. A floresta amazônica é um bioma de diversas culturas e povos e essa ‘espinha’ que foi criada no meio dela afeta diretamente extrativistas, indígenas, quilombolas”, declarou a jovem. Ela cita enchentes, queimadas, alteração no ciclo das chuvas, afastamento da caça e perda de território como consequências do desmatamento ligado ao avanço da rodovia. “A mudança climática não afeta meu território só um dia, ela afeta todos os dias. Com as enchentes mais fortes, nós perdemos roça e plantação. Elas deixam a gente desabrigada da nossa aldeia e precisamos encontrar alternativas, que são as terras firmes. Só que com o desmatamento e a chegada das estradas por trás do nosso território, ficamos sem ter para onde ir. O desmatamento afasta a caça que é um dos principais alimentos dos indígenas, o que torna mais distante o acesso à alimentação. Já estamos longe dos igarapés para pescar, chegamos na terra firme e ficamos sem a alimentação da caça”, relatou Vanessa, nasceu na aldeia São Benedita, no município de Pauini (AM) e é uma das lideranças de jovens comunicadores do Observatório da BR-319 (OBR-319).   O II Encontro da Juventude Extrativista foi realizado de 22 a 26 de novembro de 2022, em Mazagão, no Amapá, pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) em parceria com o Memorial Chico Mendes (MCM) e apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), WWF-Brasil, Rainforest Foundation Noruega (FRN) e Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). A edição reuniu mais de 140 jovens e lideranças indígenas, quilombolas, pantaneiras e extrativistas de todo o Brasil, além de comunicadores e ativistas socioambientais. 

Informativo nº39 Janeiro/2023

Informativo OBR-319 nº39Baixar Começamos com novidades! A BR-319 está no Plano de 100 Dias anunciado pelo Ministério da Infraestrutura esta semana. Segundo informações do órgão, a expectativa é que até abril ocorram contratações para elaboração de projetos e a execução obras de implantação dos portais de fiscalização no entroncamento com a BR-230, em Humaitá (AM), e da ligação da rodovia com o município de Manaquiri (AM).  Esperamos que os próximos anúncios tenham a ver com as pontes, pois a rodovia tem necessidades urgentes para garantir o bem-estar e assegurar os direitos de quem depende dela, é o caso dos moradores de comunidades na região onde as pontes desabaram entre setembro e outubro do ano passado. Os locais receberam soluções emergenciais que já necessitam de outras soluções devido a cheia. Imagens de pessoas e carros dentro d’água estão sendo mostradas todos os dias em redes sociais e veículos de comunicação, alguma coisa precisa ser feita com urgência.  Nesta edição do Informativo, no Destaque do Mês, trazemos mais um alerta sobre os riscos impostos pelas ameaças à Terra Indígena Jacareúba-Katawixi. Desta vez, ele está embasado em uma nota técnica produzida pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), organização membro do Observatório BR-319, e o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), que mostra o porquê que a portaria de Restrição de Uso é essencial para a proteção do território e para assegurar os direitos dos indígenas isolados que habitam a área tradicionalmente.   No Interior em Foco, dois jovens extrativista indígenas do povo Apurinã, falam sobre o compartilhamento de experiências de vivências na BR-319. Eles participaram do II Encontro da Juventude Extrativista foi realizado, em novembro, em Mazagão (AP). O evento foi promovido pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e reuniu mais de 140 jovens e lideranças indígenas, quilombolas, pantaneiras e extrativistas de todo o Brasil, além de comunicadores e ativistas socioambientais.  Neste mês, não temos a seção Diálogos da BR-319 por conta da transição de governo. Os encontros devem ser retomados em fevereiro. Já os monitoramentos trazem dados preocupantes em relação ao desmatamento e ao aumento de focos de calor. Por fim, não deixe conferir as últimas novidades sobre acontecimentos importantes na BR-319, no Minuto BR. Tem informações novas sobre as pontes da rodovia.   Boa leitura!   Fernanda Meirelles e Izabel Santos Secretaria Executiva do Observatório BR-319

Associação sediada na BR-319 conquista 1º lugar na Chamada Elos da Amazônia 

A Associação Pró Amazônia Urihiá foi a grande vencedora da 3ª edição da Chamada Elos da Amazônia, edição Restauração Florestal, com o projeto Urihiá Bioamazônia. A iniciativa premiada coleta de sementes de espécies nativas, produz mudas em viveiros e faz o plantio em áreas degradadas às margens da BR-319, no trecho que vai do km 114, em Careiro (AM), até o km 250, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Igapó-Açu, que é cortada pela rodovia. A Chamada tem como missão reconhecer tecnologias inovadoras e disruptivas que solucionem gargalos nas cadeias produtivas da região.  Miriam Volkmer, representante da Associação Pró Amazônia Urihiá, afirma que a notícia do 1º lugar foi uma grande emoção. “Somos uma associação bem nova, temos dois anos de fundação. Trabalhamos muito nesse período reflorestando áreas degradadas nas margens da BR-319. A conquista do primeiro lugar na Chamada Elos da Amazônia nos emocionou muito, choramos de alegria por ver nosso trabalho ser reconhecido”, disse. Viveiro de mudas de espécies nativas usadas no reflorestamento pela Associação Urihia Amazônia. Foto: Miriam Volkmer/Associação Urihia Amazônia A chamada recebeu 67 inscrições de 13 estados diferentes. A escolha das melhores iniciativas foi feita por um grupo de especialistas na temática florestal. Os cinco primeiros colocados receberão premiação em dinheiro – R$ 20 mil, R$ 10 mil, R$ 5 mil, R$ 3 mil e R$ 2 mil, respectivamente – e apoio técnico na formalização de projetos para receber aporte via leis de Pesquisa e Desenvolvimento, inserção na ampla rede de negócios do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio).  Iniciativas como a Chamada Elos, segundo Miriam, ajudam os pequenos projetos a manter a esperança. “Muitas vezes, quando estamos na nossa base operacional no km 150 da BR-319, debaixo de um calor intenso, enfrentando incontáveis dificuldades para tocar em frente esse projeto, sentimos o cansaço físico e a solidão, mas em nenhum momento esmorecemos. O primeiro lugar no certame nos traz a certeza de que estamos no caminho certo e que não caminhamos sozinhos”, complementou a representante.  A Chamada Elos da Amazônia – Edição Restauração Florestal foi realizada pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Conservação da Amazônia (Idesam), Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio) e Impact Hub Manaus, com financiamento do Partnerships for Forests, patrocínio do Fundo Vale e apoio da rede Uma Concertação pela Amazônia e Aliança Pela Restauração da Amazônia. Texto e informações gentilmente cedidos pelo PPBio e Idesam. Leia a matéria completa aqui. 

Última reunião de governança do trecho do meio em 2022

A última reunião de governança do trecho do meio da BR-319, em 2022, aconteceu no dia 02 de dezembro e foi conduzida pelo secretário especial substituto Anderson Arruda, da Secretaria de Apoio ao Licenciamento Ambiental e à Desapropriação. A ocasião contou com atualizações sobre ações do governo federal acompanhadas pela secretaria e uma apresentação sobre regularização fundiária.  A apresentação foi realizada pelo agrônomo Alex Aragão, membro da Câmara Técnica de Destinação e Regularização Fundiária de Terras Públicas Federais Rurais, vinculada à Secretaria Especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ele explicou como a câmara atua e produz informações. “O que é que a câmara técnica faz? Ela consulta informações sobre glebas públicas federais não destinadas, de forma eficiente, de forma ágil, de forma transparente, e consolida, armazena e sistematiza essas informações de forma relativa à consulta das glebas”, explicou, entre outras coisas, Alex Aragão. “Essa consulta realizada pela câmara técnica é um pré-requisito para a regularização e destinação de Terras Públicas”, acrescentou. Leandro Lima (acima), Anderson Arruda (de preto), Alex Aragão (de azul) e Larissa Rego, secretária adjunta especial de assuntos fundiários do Mapa, na reunião on-line. Imagem: Reprodução Uma das atualizações trazidas na reunião foi sobre a contratação para a construção dos Portais da Amazônia, cujo edital deveria ter sido publicado em novembro, mas foi adiado para dezembro. Além disso, foi informado que houve avanço nas tratativas para regularização fundiária das glebas federais Coati, Curupati, Veloso, Boa Vista e Acará, que totalizam 681.938,30 hectares, sobrepostas à Floresta Estadual (FES) de Tapauá, junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas (Sema-AM) e a secretaria federal trabalham com a possibilidade de duas soluções: dar a Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) ou doar as glebas ao estado do Amazonas.  “Nessa reunião com o Incra, se identificou a necessidade de fazer uma análise sobre as manifestações de interesse que já existem sobre essas cinco glebas, é preciso resolver isso antes de (adotar uma solução) seja antes de concessão de direito real de uso, seja de doação. Então o Incra vai fazer essa análise e encaminhar um pedido de parecer jurídico com relação às competências do Incra, para concessão ou doação”, disse o assessor técnico Leandro Lima de Sousa. Também foi informado que o PPI solicitou mais uma vez à Fundação Nacional do Índio (Funai), informações sobre a proteção da Terra Indígena (TI) Jacareúba-Katawixi, que está sem Portaria de Restrição de Uso desde 17 de dezembro de 2021.  Segundo a organização da reunião, o encontro deve ser mantido no governo Lula da mesma maneira: toda primeira sexta-feira do mês, às 9h, horário de Manaus (AM). 

Fome de sal na Amazônia 

Por Sergio Santorelli Junior*  Fome de sal na Amazônia? É isso mesmo? Sim, mas, antes, é preciso explicar que estamos falando de um elemento químico chamado sódio, um dos principais componentes químicos encontrado no sal e no nosso suor. O sódio é um dos elementos biológicos essenciais para a maioria dos animais. Ele é necessário para o crescimento, manutenção e sobrevivência. No entanto, não está igualmente disponível na natureza. As regiões próximas ao mar, geralmente, têm as maiores concentrações de sódio, ao contrário do que acontece em alguns locais da Amazônia, que possuem menores quantidades, como por exemplo, as florestas no entorno da BR-319.  A necessidade de sódio nessa região é facilmente percebida. Insetos, especialmente abelhas, estão por toda parte lambendo o sódio liberado na nossa pele pelo suor e entranhado em roupas, mochilas e ferramentas de trabalho. Abelhas, borboletas e outros insetos que, frequentemente, se alimentam de néctar e pólen que coletam das flores são os visitantes mais frequentes e famintos pelo nosso suor. Quem já caminhou dentro da floresta, às margens da rodovia, já deve ter passado por essa experiência e percebido que não é fácil fugir desses insetos. Abelhas, atraídas pelo vestígio de suor, pousam no cabo de um terçado usado pelos pesquisadores na floresta. Foto: Sergio Santorelli Jr./Ufam-Humaitá Entender mais sobre a concentração de sódio nas florestas pode melhorar o nosso entendimento de como as espécies amazônicas estão distribuídas, além de permitir levantar outras questões, como por exemplo: a falta de sódio pode afetar a polinização das flores pelas abelhas? A resposta para essa pergunta é um dos objetivos das pesquisas que estão sendo realizadas na área de influência da rodovia.  Atualmente, sabemos que as abelhas são importantes e muito eficientes para polinizar as plantas, e sabemos que, sem a polinização, não é possível gerar frutos e, sem frutos, não teremos sementes e, sem sementes, não teremos novas plantas.    Uma melhor compreensão das necessidades básicas desses organismos e de muitos outros é crucial para prever a distribuição das espécies e para entender como elas interagem com o ambiente, especialmente em cenários de mudanças climáticas e problemas provocados pela presença humana, que podem alterar os padrões de concentração de sódio na floresta e, portanto, a fome de sal.  *Pesquisador vinculado a Universidade Federal do Amazonas – Humaitá (AM) através do Programa de fixação de Recursos Humanos no Interior do Estado (FAPEAM – PROFIX Edital 009/2021)

Manejo do pirarucu fortalece proteção territorial nas terras indígenas Paumari, em Tapauá (AM)

Há 14 anos, os Paumari das Terras Indígenas (TI) Lago Manissuã, Lago Paricá e Cuniuá, na área de influência da BR-319, passavam por um momento desafiador, com escassez de alimentos e invasões do seu território. Tudo mudou quando eles decidiram que era hora de sistematizar atividades de fortalecimento econômico e territorial e buscaram elaborar um plano de manejo sustentável de pirarucu. No início, eles tinham apenas 266 peixes nos lagos, entre adultos e juvenis. Atualmente, têm mais 11 mil e a realidade é bem diferente, com fartura e organização social consolidada. A última pesca deste ano, rendeu 650 peixes totalizando 33 toneladas de carne de pirarucu. Hoje, a atividade é a mais importante fonte de renda dos Paumari, em Tapauá (AM).  Francisco Braz da Silva de Oliveira, o Chico Paumari, estava lá no começo dessa história. “Primeiro tentamos a apicultura, mas vimos que não era uma atividade boa pra gente. Então fomos atrás de parcerias para o manejo de pesca. Só que achávamos que o retorno viria logo, mas não foi assim. Levamos cinco anos para conseguir a primeira pesca”, recordou. A escassez era tanta, que muitos Paumari deixaram os territórios em busca de melhores condições de vida em outros locais. “Muitos saíram porque não tínhamos mais recursos o suficiente para garantir o bem-estar de todos”, disse Chico. “Nem todo mundo acreditava que a gente ia conseguir, mas mostramos que somos um povo capaz de resistir”, destacou. Hoje, Chico é um dos coordenadores da pesca.  Os Paumari, assim como outros povos da região do rio Purus, foram impactados pelo Ciclo da Borracha, que desestruturou a organização social e o modo de vida dos indígenas. Os que sobreviveram, foram inseridos no trabalho em seringais e outras atividades paralelas. Por muito tempo, os Paumari praticaram atividades econômicas baseadas no escambo, em que trocavam, por exemplo, açaí e pescado, e, também, arrendavam suas terras para exploração, em troca de favores, equipamentos e outros alimentos, mas não dinheiro. O manejo do pirarucu é a primeira atividade remunerada com dinheiro que eles desenvolvem.  Chico Paumari (em pé) é o coordenador da pesca Paumari. Foto: Adriano Gambarini/OPAN Para mudar essa realidade, Chico contou que um dos maiores desafios foi unir sete aldeias das três terras indígenas em torno do propósito de elaborar o plano de manejo de pesca. “O entrosamento foi um pouco difícil, pois cada qual queria seguir um caminho diferente, mas quando entendemos que o caminho deveria ser coletivo, os planos começaram a dar certo”, disse Chico Paumari.  Ana Paula Lima Reis, a Ana Paula Paumari, secretária da Associação Indígena do Povo das Águas (AIPA), também acrescentou que a pesca do pirarucu ajudou os indígenas a se apropriarem do território. “O manejo foi uma estratégia muito importante para a nossa melhoria de vida. Na época em que começamos, estávamos passando por um momento muito difícil de acesso a peixe e até à caça, também não tínhamos ideia de como melhorar. Hoje, temos fartura, não só de pirarucu, mas de outros peixes, e um ambiente mais sadio, pois, antes, não sabíamos o quão importante era manter a floresta em pé. Agora, sabemos e mostramos a importância disso aos nossos filhos e nossos netos, o que dá segurança a gerações futuras”, explicou.  Os mais de 83 mil hectares das três TIs contam com sete bases de vigilância em pontos estratégicos, onde os indígenas se revezam em escalas durante seis meses ao ano. “Mesmo morando dentro da terra, não sabíamos o valor que nossas terras tinham. Agora sabemos a importância que ela tem. Por isso, defendemos com mais propriedade as árvores, os animais silvestres, tudo. Temos o maior cuidado com o nosso ambiente para não haver fogo, desmatamento, nenhum tipo de retirada de recursos”, disse Chico Paumari.  Chico e Ana Paula estiveram em Manaus (AM) no mês de dezembro para participar de um encontro do Coletivo Pirarucu, uma rede de manejadores e manejadoras de pirarucu das bacias dos rios Negro, Solimões, Juruá e Purus, no Amazonas, que trocam experiências e desenvolvem propostas e estratégias conjuntas para a valorização e o fortalecimento do manejo participativo do pirarucu, e para a comercialização do pescado a preços justos. Em 2019, o grupo criou a marca coletiva Gosto da Amazônia, com o objetivo de expandir a venda do pirarucu de manejo fora da Amazônia, com a abertura e consolidação de mercados no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília.  A presença no evento também é uma vitória dos Paumari. “Éramos um povo escondido”, disse Chico. “Hoje, a gente viaja para diversos locais para debater o manejo do pirarucu e mostrar o que fazemos nas nossas terras”, acrescentou orgulhoso.  O pescado Paumari é comercializado a R$ 8 o quilo, onde descontados os custos de insumos e serviços as famílias recebem 6 reais pelo quilo, em parceria com a Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), uma das maiores organizações de base comunitária da Amazônia brasileira.  Manejo dá visibilidade a mulheres Paumari  Mãe, mulher, manejadora e atual secretária da Associação Indígena do Povo das Águas (AIPA) Ana Paula Paumari tem entre as suas prioridades de atuação o protagonismo feminino nas atividades de pesca. “Antes, a gente, enquanto mulher, não tinha muito envolvimento com a atividade de manejo. Também, não sabíamos da importância de participar. Há três anos, começamos a ir a reuniões, pedir espaço para dar opinião, falar, e hoje nós já vemos a nossa presença de maneira diferente e com mais maturidade. Se tem algum evento, vem um homem e mais uma mulher para representar a associação”, explicou Ana Paula. “As mulheres, hoje, estão tão envolvidas no manejo quanto os homens. Antes, os homens falavam e a gente só escutava, agora isso mudou. Éramos mais tímidas, mas agora temos uma coragem e uma força maior. Nos sentimos mais valorizadas”, destacou. Ana Paula Paumari é secretária da AIPA e uma das maiores lideranças femininas do território. Foto: Divulgação/Coletivo Pirarucu As mulheres Paumari também participam do manejo em diversas atividades, que estão divididas entre vigilância, contagem, reuniões, pesca e cozinha. “A pesca é um evento grande, que mobiliza muita gente e uma estrutura muito grande, que vai desde quem conta o número de peixes até quem cozinha pra alimentar quem está trabalhando”, acrescentou Ana Paula.  Pirarucu: símbolo da capacidade de renovação e recuperação do ambiente  O pirarucu é um dos peixes mais famosos da Amazônia, seja pela sua versatilidade gastronômica ou pela imponência física, sendo uma das maiores espécies de água doce do mundo. Ele está em risco de extinção, devido à pesca descontrolada e, desde 2004, sua pesca está proibida fora de área de manejo e segue normas determinadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Mas a pesca ilegal ainda é muito comum, mesmo caracterizando crime ambiental previsto por lei.  Por isso, uma parte importante do plano de manejo elaborado pelos Paumari é o monitoramento territorial. “A vigilância territorial dos Paumari parte do pressuposto de reordenar e criar um certo controle sobre o território. É importante entender que, em regiões como o sul do Amazonas, quanto mais recursos naturais esses territórios têm, mais cobiçados eles são”, explicou o indigenista e coordenador do Programa Amazonas da Operação Amazônia Nativa (OPAN), Diogo Henrique Girotto. A OPAN é uma das organizações membro do Observatório BR-319 e atua em parceria com os indígenas Paumari, Jamamadi, Banawa e Apurinã no Amazonas.  “A Amazônia como um todo tem problemas que precisam ser resolvidos, mas o sul do Amazonas é uma região muito pressionada e bastante sensível. A TIs Lago Manissuã, Lago Paricá e Cuniuá estão entre as menores da Amazônia e, juntas, formam um bloco e ainda têm um entorno relativamente preservado, mas sem ordenamento territorial. É importante que em futuro bem próximo, esses territórios sejam incluídos em mosaicos de Áreas Protegidas para garantir a continuidade e a reprodução do modo de vida dos Paumari”, avaliou Girotto.  O indigenista colaborou com a implantação do plano de manejo nos territórios Paumari. Ele explicou que todo processo de pesca do pirarucu depende da recuperação natural do estoque do peixe. “O processo da pesca é um cálculo ambiental de capacidade de produção”, disse. “O pirarucu sempre foi um peixe importante para a economia do estado Amazonas. Hoje, com o advento dos manejos, que traz proteção à espécie, é muito emblemático que um peixe em risco de extinção possa ser pescado, comercializado e atender a mercados através do processo de recuperação de estoques”, acrescentou Diogo.  “É nítida a resposta da natureza quando as comunidades estão organizadas. O pirarucu é um símbolo da capacidade de renovação e recuperação e mostra que, através do manejo, há uma mudança de paradigma que traz eficiência e resposta. O maior ganho é o resultado que vem pra dentro das terras indígenas, com fartura, com a manutenção do modo de vida dos povos, que podem se desenvolver de maneira digna e equilibrada com o entorno das terras indígenas”, avaliou Diogo.  Reunião comunitária realizada durante a pesca. Foto: Adriano Gambarini/OPAN Quem são os PaumariOs Paumari se autodenominam Pamoari, nome da língua que falam pertencente à família linguística Arawá, e são um dos poucos povos indígenas do médio rio Purus que conseguiram sobreviver, sem confrontos armados, à exploração da borracha na região. Em contato com os não indígenas há, pelo menos, 200 anos, pois são mencionados em fontes históricas desde 1845, ficaram conhecidos como “nômades do Purus”, devido à grande capacidade de mobilidade e a suas habitações tradicionais, construídas em cima de balsas, chamadas “flutuantes”, por isso também são chamados de “povo das águas”. Até onde se sabe, eles habitam desde sempre, exclusivamente, a bacia do médio rio Purus e seus afluentes, os rios Ituxi, Sepatini e Tapauá, no Amazonas. O local onde fica o município de Lábrea (AM) era território Paumari. Em 2010, a população indígena Paumari era estimada em 1.559 pessoas, incluindo as moram em contexto urbano, no entorno das terras e em territórios Apurinã.Fonte: Instituto Socioambiental  Pirarucu manejado sendo transportado em triciclo no território Paumari. Foto: Adriano Gambarini/OPAN Curiosidades sobre o pirarucu - O nome pirarucu vem de dois termos indígenas: pira, “peixe’, e urucum, “vermelho”, devido à cor de sua cauda;- Por muito tempo, acreditou-se que a Arapaima gigas, nome científico do pirarucu, fosse a única espécie existente na Amazônia, mas, hoje, a ciência já identificou outras quatro;- Quando adulto, pode medir de dois a três metros e pesar de 100 a 200 kg;- Possui dois aparelhos respiratórios: as brânquias, para a respiração aquática, e a bexiga natatória modificada, que funciona como pulmão para respiração aérea, parecida com a humana;- Os pirarucus podem ficar embaixo d’água apenas entre 10 e 20 minutos; - Quando respiram fora da água, emitem um ruído alto semelhante a uma tosse e pode ser ouvido de longe; - Vive em lagos e rios afluentes de águas claras, não é encontrado em lugares com fortes correntezas ou em águas com sedimentos;- É um animal onívoro, pois se alimenta de seres animais e vegetais.Fontes: WWF Brasil e National Geographic Brasil. Leia maisComo os indígenas preservam o pirarucuManejo sustentável do Pirarucu garante renda para centenas de famílias do AMGigante e sustentável, o pirarucu virou moda nos EUA

Informativo nº38 Dezembro/2022

Informativo OBR-319 nº38Baixar Encerrando 2022 com um pé em 2023, o Informativo Observatório BR-319 chega aos leitores e leitoras um pouco depois que o esperado, mas com a mesma qualidade de sempre. A ideia de adiar o envio para esta data é para que vocês não percam a oportunidade de consumir o conteúdo da maneira mais proveitosa possível.  Começamos este editorial agradecendo de todo o coração a atenção de vocês, que leem, comentam, enviam sugestões, compartilham e fazem o nosso alcance aumentar cada vez mais. Graças a isso, o trabalho do Observatório BR-319 só cresce e chega a cada vez mais pessoas. Muito obrigada!  Esta última edição do ano traz no Destaque do Mês um assunto muito especial: o manejo do pirarucu em territórios Paumari. A matéria foi produzida com a Operação Amazônia Nativa (Opan), organização membro da rede que se juntou a nós há cerca de um ano. Muito nos alegra o êxito do projeto de manejo da espécie de peixe mais importante da Amazônia na atualidade, pois mostra que atividades econômicas sustentáveis podem gerar renda e ao mesmo tempo fortalecer o modo de vida dos povos da floresta.  O Interior em Foco fala sobre outro projeto, o Urihiá Bioamazônia, criado pela Associação Pró Amazônia Urihiá e voltado para sustentabilidade aplicada à restauração florestal em pequenas propriedades ao logo das margens da rodovia. A iniciativa foi a grande vencedora da 3ª edição da Chamada Elos da Amazônia. É alentador saber que ainda existem pessoas que conseguem mudar realidades, aparentemente afetadas por problemas de difíceis soluções, com atitudes movidas por sonhos.  Esta edição traz o resumo da última reunião de governança do trecho do meio da BR-319 do ano, os monitoramentos de focos de calor e desmatamento, além das últimas informações sobre acontecimentos importantes na rodovia, como é o caso da situação de algumas pontes. Desde setembro, uma série de acontecimentos estão afetando a rotina de quem usa a BR-319 para se deslocar, desde acidentes até ações criminosas. Deixamos aqui o nosso alerta sobre medidas urgentes que precisam ser tomadas para evitar novas tragédias.  Por fim, desejamos a todos um 2023 de muita paz e prosperidade em todos os sentidos, que os recomeços que este ano nos traz sejam os melhores possíveis, que eles representem uma nova fase, de união, amor e solidariedade. Feliz Ano Novo!  Boa leitura!  Fernanda Meirelles e Izabel SantosSecretaria Executiva do Observatório BR-319 

Informativo nº37 Novembro/2022

Chegamos ao penúltimo informativo do ano e estamos satisfeitas pelo rumo que o Brasil está tomando: voltando aos trilhos. Acreditamos que após ano de turbulência e falta de perspectivas boas, finalmente estamos avistando no horizonte um cenário civilizado.  Esperamos que as novas gestões, não apenas no âmbito federal, mas também estadual, fortaleçam a atuação de órgãos importantes, para melhorar a governança na área de influência da BR-319. É um discurso recorrente no OBR-319? Sim! Mas necessário!  Precisamos que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), hoje com a atuação comprometida por diversas razões, voltem a atuar! Precisamos, urgentemente, do fortalecimento de órgãos de comando controle, de melhoria da gestão das Unidades de Conservação (UC). É necessário que órgãos como o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Estadual do Amazonas (Idam) estejam nos territórios, ao lado dos produtores, com escritórios locais. E, claro, do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) na rodovia.   Precisamos, também, voltar a discutir a questão do licenciamento, que desrespeita descaradamente o direito à consulta dos povos da floresta e, com isso, ignora etapas importantes que garantem a segurança jurídica da obra. Os indígenas e as comunidades tradicionais precisam ser ouvidos.  Nesta edição, tem uma matéria sobre os contratos de obras na BR-319, um assunto talvez inesgotável, mas com certeza, de grande interesse público. O texto foi produzido em parceria com a Transparência Internacional – Brasil, uma das organizações membro do OBR-319. Também temos uma reunião sobre mudanças climáticas realizada na BR-319 com mulheres da área de influência da rodovia. Além disso, a seção Ciência traz informações sobre publicações a respeito de pesquisas de fauna na região e, por fim, falamos sobre a retomada das reuniões de governança promovidas pelo governo federal. Ah, não deixem de ver os monitoramentos e as últimas notícias no Minuto BR.  Boa leitura!  Fernanda Meirelles e Izabel Santos Secretaria Executiva do Observatório BR-319 

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A Linha do Tempo apresenta os principais acontecimentos que marcaram a história da BR-319 desde a década de 1970 até os dias de hoje, com acesso a documentos oficiais, fotos e publicações sobre o licenciamento ambiental e outros assuntos relacionados à rodovia.

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