Em ano de COP30, Observatório BR-319 fortalece debate sobre impactos socioambientais e mudanças climáticas

O ano de 2025 foi marcante no debate ambiental, e um dos principais motivos foi a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), evento que reforçou a urgência da luta contra as mudanças climáticas. Nesse sentido, o Observatório BR-319 (OBR-319) teve um importante papel no fortalecimento do debate sobre conservação da biodiversidade, direitos territoriais e impactos socioambientais na Amazônia.
A partir de diálogos com populações e povos tradicionais, apuração de informações públicas, análise de dados estatísticos e entrevistas com especialistas, a organização contribuiu para manter a estrada federal, que liga Manaus (AM) e Porto Velho (RO), no centro do debate público.
Ao longo do ano, foram produzidas diversas edições do “Informativo BR-319”. O levantamento apresenta as principais notícias relacionadas à rodovia em cada mês. Os conteúdos não ganharam relevância apenas em portais, revistas, rádios e TVs regionais, mas também em grandes periódicos do Brasil.
Marcelo Rodrigues, secretário executivo do Observatório, destaca o compromisso em produzir informações qualificadas para o desenvolvimento de instrumentos legais que respeitem as populações tradicionais e a autonomia dos moradores dos territórios locais.
“Qualquer debate sobre infraestrutura na Amazônia precisa considerar os direitos territoriais, a autonomia das populações tradicionais e os impactos socioambientais de longo prazo. A COP30 evidenciou que decisões locais têm impactos globais, e, ao manter a BR-319 em pauta pública, o Observatório seguirá contribuindo para que essas discussões sejam embasadas em informações qualificadas”, comenta.
Diálogos antes e depois da COP30
Em novembro, o Brasil sediou a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém (PA). O encontro, realizado pela primeira vez no país, teve mais de 160 delegações internacionais para discutir problemas e soluções no enfrentamento às mudanças climáticas.
Às vésperas do início da COP30, o OBR-319 noticiou o risco do Brasil não alcançar o desmatamento ilegal zero até o ano de 2030, caso a região da BR-319 não tenha governança territorial apropriada, com as necessárias políticas públicas e as respectivas instituições e órgãos públicos necessários para garantir o desenvolvimento sustentável da região.
Ainda na COP30, na Marcha Mundial pelo Clima, organizações indígenas e extrativistas, que integram o Observatório, realizaram o “Protocolaço”. O ato cobrou o direito à Consulta Livre, Prévia, Informada e de Boa Fé aos povos indígenas e povos e comunidades tradicionais do Sul do Amazonas. O recado foi direto: qualquer tentativa de avançar com o asfaltamento da BR-319, ignorando os protocolos estabelecidos, será denunciada como afronta à justiça climática.

Desmatamento, focos de calor e estradas clandestinas
Logo em fevereiro, o Observatório publicou a “Retrospectiva 2024: Desmatamento e focos de calor na área de influência da rodovia BR-319”. O documento trouxe um panorama geral do cenário entre 2010 a 2024, mostrando a redução do desmatamento e o agravamento dos focos de calor, uma realidade que ameaça a integridade das populações tradicionais e da própria floresta amazônica.
Ainda que preocupante, essa transparência ganhou espaço no 21º Acampamento Terra Livre (ATL), realizado em Brasília (DF) no mês de abril. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) apresentou o “Mapa Interativo do Observatório BR-319”, ferramenta gratuita que disponibiliza dados socioambientais sobre os 13 municípios, 42 Unidades de Conservação (UCs) e 69 Terras Indígenas (TIs) localizadas na região da rodovia.
Cada vez mais, o mapa interativo é utilizado por jornalistas, pesquisadores, organizações sociais e lideranças de povos tradicionais como um instrumento para defesa da região.
Já em outubro, o Observatório lançou o estudo “Abertura de ramais e estradas clandestinas como vetores de desmatamento no Interflúvio Madeira-Purus: análise com dados geoespaciais recentes”. A análise revelou que a abertura de ramais e estradas clandestinas já havia alcançado 45.495 feições lineares, totalizando 18.897 quilômetros (km). Desse total, 11,8% (2.240 km) estão localizados em Unidades de Conservação (UCs) federais e 6,8% (1.297) em Terras Indígenas (TIs).

Entrevistas com especialistas
O Observatório também reforçou sua cobertura com entrevistas junto a especialistas de diversas áreas. Muitas foram apresentadas na seção “Ciência”, do “Informativo BR-319”.
Para o Dia da Amazônia, o Doutor em Ecologia e diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Henrique Pereira, ressaltou a importância da floresta para o equilíbrio climático na região e em outros ecossistemas do continente. Ao mesmo tempo em que reconhece o esforço do Poder Público em conter as ameaças socioambientais, para o Brasil alcançar a meta de desmatamento zero até 2030, mais soluções são necessárias.
Outra entrevista marcante foi com o geólogo, conselheiro titular do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas (CREA-AM) e professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Lucindo Antunes Fernandes Filho. Embora considere a rodovia um instrumento estratégico para a região, alertou na época que as obras de pavimentação poderiam gerar enchentes e inundações na região, além de serem complexas e custosas ao poder público.
Quem trouxe um olhar positivo foi o antropólogo, presidente do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (Opi) e pesquisador do INPA, Miguel Aparicio. Em sua conversa com a equipe do Observatório, abordou como a região de influência da BR-319 abriga vários povos e culturas indígenas milenares que, mesmo ameaçados, possuem soluções sustentáveis para os impactos socioambientais da rodovia.
“Seguiremos atuando para fortalecer o diálogo com a sociedade, apoiar a tomada de decisão informada e defender soluções que promovam o desenvolvimento sustentável para as populações da BR-319”, finaliza o secretário executivo do Observatório.
Mais informações estão disponíveis em https://observatoriobr319.org.br/.
