Especialista avalia que pavimentação da BR-319 pode ser complexa, custosa e gerar inundações

A pavimentação da BR-319 pode ser uma realidade em breve, após um acordo entre os ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e dos Transportes, anunciado em julho e batizado como “Plano BR-319”. Já em setembro, o cronograma avançou com a contratação de uma empresa para a elaboração do estudo de gestão ambiental. Porém, as obras podem gerar enchentes e inundações na região, além de serem complexas e mais custosas ao poder público.
O geólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Lucindo Antunes Fernandes Filho, avalia a pavimentação como uma obra necessária e estratégica para a região, mas explica que uma preocupação imprescindível são as bacias hidrográficas, de rios e igarapés de diferentes tamanhos, que atravessam a rodovia. Esses locais são lar de uma rica e complexa biodiversidade que desempenha um importante papel ecossistêmico, além de servir à população local.
“É uma região de baixa altimetria topográfica e por isso possui grande influência da variação dos períodos de vazante e enchentes dos rios na profundidade do nível freático. Ou seja, o nível da água subterrânea está muito próximo da superfície”, destaca Lucindo, que também é conselheiro titular do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas (CREA-AM).
Ele enfatiza que a região não possui riscos geológicos naturais, mas a pavimentação pode gerar enchentes e inundações. “Se não forem tomados os cuidados em relação às bacias hidrográficas e a manutenção dos cursos d’água, rios e igarapés, pode haver perdas econômicas associadas”, pontua.

Outra preocupação é sobre o substrato geológico do “trecho do meio”, que fica na rodovia, e é composto por rochas sedimentares cenozoicas, incoesas e porosas. Ao mesmo tempo, a região fica distante de uma fonte de agregados graúdos para a composição do pavimento. O trecho do meio possui aproximadamente 400 quilômetros, sendo considerada a região mais crítica da rodovia.
Esses fatores impactam não apenas na obra de pavimentação, mas em sua conservação ao longo dos anos. Mais um agravante é o resultado de intervenções anteriores. “As características naturais do substrato rochoso já foram alteradas várias vezes por obras de recuperação e manutenção no passado. Isso é um complicador antrópico, [pois] materiais de diferentes locais foram usados, ou seja, hoje se encontram misturados ao longo da estrada”, destaca.
Além disso, reforça o pesquisador: “o conhecimento dos processos geológicos atuantes é importante, para que esse seja preservado após a conclusão da obra. A não alteração deles irá manter os costumes das populações, bem como a biodiversidade. […]. Principalmente, o projeto deve caracterizar muito bem o comportamento do regime das águas superficiais e subterrâneas nas bacias hidrográficas envolvidas, executar e concluir o projeto sem alterá-lo”.
